quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Para Gostar de Tintim

Por Giorgi Capelli - GHQ

As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne, o mais novo filme de Steven Spielberg (Jurassic ParkIndiana JonesTubarão,ET) com produção de Peter Jackson (O Senhor dos AnéisKing Kong) tem estreia prometida no Brasil para 21 de janeiro de 2012. Todo mundo já sabe que depois deste haverá mais duas sequências. Também se sabe que a animação foi produzida com a técnica de captura digital de movimentos de atores e que a dupla Spielberg/Jackson significa diversão mais que garantida.
Puxando um pouco pela memória, talvez você se lembre que a TV Cultura e o Cartoon Network exibiram uma série de desenhos animados desse personagem, nos anos noventa. Talvez seja novidade para alguns o fato de não ser a primeira vez que Tintim e seus amigos chegam ao cinema. Eles já haviam aparecido em dois filmes: Tintim e o Mistério do Velo de Ouro(Tintin et le mystère de la Toison d’or, 1961) e Tintim e as Laranjas Azuis (Tintin et Les Orangs Bleues, 1964). Sem contar uma série de desenhos para a TV, ainda mais antiga, produzida em 1958, que passou aqui no final dos anos setenta. É bom que se diga, no entanto, que Tintim e seu cachorrinho Milu, antes de estrelarem nas telinhas e nos telões, vieram, originalmente, das histórias em quadrinhos franco-belgas.
Sim, senhor! Nem só de baixinhos musculosos lutadores de artes marciais vive a Bélgica. Aquele país tem uma longa tradição em histórias em quadrinhos, com vários personagens e séries de grande sucesso na Europa. Infelizmente, alguns títulos ainda permanecem inéditos por aqui. Ainda bem que pelo menos Tintim, Milu e seus amigos conseguiram chegar ao Brasil. A série já foi traduzida em 50 línguas e tem mais de 200 milhões de exemplares vendidos!
Hora de conhecer um pouco mais a fundo esse personagem…
Nascimento

Tintim (que em francês se pronuncia “tantan”) apareceu pela primeira vez em 1929 no jornal Le Petit Vingtiéme. Seu criador, Georges Remy, assinava Hergé (as iniciais de seu nome, G. R., em ordem inversa). A aventura saiu em capítulos de duas páginas semanais no suplemento infanto-juvenil do jornal, com o título Tintim no País dos Sovietes, entre 10 de janeiro de 1929 e 8 de maio de 1930. Até alguns anos atrás, quem quisesse um exemplar dessa história quase passava por uma aventura digna do próprio Tintim. Hoje podemos achá-la nas boas livrarias do Brasil, publicada pela Cia. das Letras. É o único álbum não colorido da série.
Tudo começa com um anúncio no jornal, dizendo que o jovem repórter fará uma matéria sobre a União Soviética. Ao chegar, o trem que o transportava explode e os sovietes jogam a culpa no rapaz. Tintim vai preso, consegue fugir e passa por vários perigos, numa história com um ritmo frenético e divertido. Hergé escreveu uma aventura cuja ingenuidade cria alguns momentos de humor involuntário. Não podemos culpá-lo! Era tão jovem e ingênuo quanto seu personagem/alter-ego, e suas únicas informações sobre a União Soviética vinham do livro Moscou sans voiles, de 1928 (Moscou sem véu, em tradução livre) de Joseph Douillet, ex-cônsul belga que viveu e trabalhou nove anos na URSS.
Essa aventura de estreia fez tanto sucesso que, para marcar seu final, o jornal contratou um escoteiro de 15 anos para fazer o papel do repórter retornando a Bruxelas. Umanúncio convidava os leitores a comparecerem ao evento. No dia marcado, uma multidão aguardava o personagem na estação ferroviária. Uma ideia brilhante para promover o jornal e seu personagem, levando-se em conta que o conceito de marketing não existia no final da década de 1920…
Após o sucesso, a(s) sequência(s)
Em seu segundo álbum, Tintim na África (Tintin au Congo), o jovem repórter e seu fox terrier visitam o Congo Belga, numa história de causar enfarte aos ecologicamente corretos de hoje. Tintim explode um rinoceronte, dispara contra uma dezena de cervos, mata e esfola um gorila a fim de criar um disfarce para salvar Milu de outro gorila e trata os africanos como inferiores. Recentemente, em abril de 2011, um congolês resolveu abrir processo contra o álbum, alegando que seu conteúdo apresenta uma visão preconceituosa e colonialista dos negros e dos povos africanos.
Nos álbuns seguintes, percebe-se um amadurecimento de Hergé como escritor e ilustrador, bem como um cuidado maior com as informações. Em seus 54 anos de carreira e 24 álbuns, organizou arquivos detalhadíssimos, com fotos e documentos sobre os países onde Tintim ia viver suas aventuras, bem como de cenários, paisagens, veículos, vestimentas etc. Ao escrever O Lótus Azul, que se passa na China, Hergé recebeu o auxílio de um estudante daquele país, Chang, que inclusive virou personagem nesse e em outro álbum da série, Tintim no Tibete. Em Rumo à Lua e Explorando a Lua, álbuns de 1953 e 1954, Hergé associou-se a especialistas. Em um certo momento, Tintim cai por uma cratera lunar e encontra gelo nas profundidades do satélite da Terra. Mais de cinquenta anos depois, o que parecia ficção científica revelou-se  não tão fictício assim. Vejam este link:
O que Hergé nunca perdeu, em todos esses anos, foi seu humor, às vezes pastelão, às vezes discreto. Em seu último trabalho,Tintim e os Pícaros, os personagens envolvem-se com um ditador da América do Sul. Quando chegam de avião ao país, há uma placa imensa, escrito “Viva Tapioca”, saudando o general-ditador, com policiais passeando próximos a uma favela. Ao final da aventura, Tapioca, derrubado com a ajuda de Tintim, é substituído pelo general Alcazar, conhecido do herói. Na última página, o avião parte, com uma placa em primeiro plano onde se lê “Viva Alcazar”. Logo atrás dela, soldados caminham diante uma favela. A mensagem sutil: embora tenha sido trocado o ditador, a situação não se alterou em absolutamente nada. “Mudam-se as moscas…”
Os Coadjuvantes
Como sempre acontece com um grande personagem, Tintim tem uma turma de coadjuvantes que não decepcionam. Milu, o cachorrinho inteligente e companheiro; seu grande amigo, o capitão Haddock, fiel, esquentado e extremamente criativo nos insultos; o professor Girassol, inventor surdo e distraído; os gêmeos Dupondt, (Dupond e Dupont), investigadores que parecem uma versão dupla e muito mais atrapalhada do Vagabundo de Charles Chaplin; Bianca Castafiore, estrela da ópera que teima em cantar nos piores momentos, além de apaixonada pelo capitão Haddock; Rastapapoulos, o vilão recorrente, armador grego milionário, uma espécie de Aristóteles Onassis do mal; e tantos outros que aparecem aqui e ali para temperar ainda mais uma série que já é de dar água na boca.
Por causa de um desses personagens, este resenhista acabou criando a expressão “Efeito Haddock”, que ilustra o talento de certos coadjuvantes para roubar a cena e serem mais interessantes que o personagem principal. Assim acontece com Obelix, companheiro de aventuras de Asterix; Han Solo, parceiro de Luke Skywalker; Pato Donald e Pateta em relação ao Mickey; e Ronnie e Hermione, amigos de Harry Potter.
Traço
Revolucionário, o traço de Hergé originou um novo estilo de desenho, chamado linha clara. À primeira vista simples, correto e despretensioso, ele consegue, por isso mesmo, mostrar competência. A principal influência vem, sem dúvida, de seu xará norte-americano, George McManus, criador do Pafúncio. Comparem os dois.
Herdeiros de Tintim
Na mesma Bélgica de Tintim, uma outra dupla de personagens criados poucos anos depois (por volta de 1938 a 1947) ainda faz sucesso por lá até hoje: Spirou e Fantásio. Os Estados Unidos também tem seu Tintim – ele atende pelo nome de Jonny Quest.
É curioso perceber algumas características semelhantes entre as séries, o que pode explicar em parte seu sucesso:
  • todas têm um jovem aventureiro como personagem principal;
  • esse jovem tem um bicho de estimação responsável por momentos de alívio cômico;
  • o jovem aventureiro tem um melhor amigo sempre por perto para acompanhá-lo;
  • existe um cientista cujos inventos mirabolantes acabam participando da aventura;
  • a presença feminina é quase nula e, quando alguma mulher surge, tem características negativas;
  • e, claro, histórias empolgantes em algum lugar do planeta.
Todos os álbuns
  1. Tintin au pays des Soviets (Tintim no País dos Sovietes) • 1930
  2. Tintin au Congo (Tintim na África) • 1931
  3. Tintin en Amérique (Tintim na América) • 1932
  4. Les cigares du pharaon (Os Charutos do Faraó) • 1934
  5. Le lotus bleu (O Lótus Azul) • 1936
  6. L’oreille cassée (O Ídolo Roubado) • 1937
  7. L’île noire (A Ilha Negra) • 1938
  8. Le sceptre d’Ottokar (O Cetro de Ottokar) • 1939
  9. Le crabe aux pinces d’or (O Caranguejo das Pinças de Ouro/O Caranguejo das Tenazes de Ouro) • 1941
  10. L’étoile mysterieuse (A Estrela Misteriosa) • 1942
  11. Le secret de la Licorne (O Segredo do Licorne) • 1943
  12. Le trésor de Rackham le Rouge (O Tesouro de Rackham o Terrível) • 1944
  13. Les sept boules de cristal (As Sete Bolas de Cristal) • 1948
  14. Le temple du soleil (O Templo do Sol) • 1949
  15. Tintin au pays de l’or noir (Tintim no País do Ouro Negro) • 1950
  16. Objectif Lune (Rumo à Lua) • 1953
  17. On a marché sur la Lune (Explorando a Lua) • 1954
  18. L’affaire Tournesol (O Caso Girassol) • 1956
  19. Coke en stock (Perdidos no Mar) • 1958
  20. Tintin au Tibet (Tintim no Tibete) • 1960
  21. Les bijoux de la Castafiore (As Jóias da Castafiore) • 1963
  22. Vol 714 pour Sydney (Voo 714 para Sydney) • 1968
  23. Tintin et les picaros (Tintim e os Pícaros) • 1976
  24. Tintin et l’Alph-Art (Tintim e a Alfa-Arte) • 1983 (incompleto, reeditado em 2008)

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